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História

Considerações sobre a fundação de Cordeiro

O contar e recontar, através de sucessivas gerações, de como se deu o povoamento de nossa região, não raro cede às pressões românticas das lendas em detrimento dos fatos e a fantasia, tantas vezes repetida assume foros de história. Desta forma, assim como ao garimpeiro e contrabandista de ouro Mão de Luva empresta-se o falso papel de um inexistente Duque de Santo Tirso, alguns tem atribuído a Manoel Rozendo Cordeiro – tido como fundador de Cordeiro – a condição de bandeirante, integrando-o, segundo tal versão, a um movimento relacionado aos séculos XVII e XVIII. Algumas ponderações, sob a luz da documentação ainda existente (lamentavelmente muito do acervo documental de Cantagalo e conseqüentemente de toda a região, perdeu-se) devem ser feitas: Manoel Rozendo Cordeiro teria nascido em data indeterminada, por volta de 1848, sobrevivendo até os primeiros anos do século XX, não estando, pois, inserido no período descrito pelo movimento ao qual se quer integrá-lo. Acresce que o povoamento regional por europeus, a partir da instalação nesta margem do Paraíba, do bando chefiado por Mão de Luva, ocorre já em torno de 1780, ano em que sequer o pai de Manoel Rozendo Cordeiro havia nascido. Isto posto, convirá um mergulho pela história familiar de nosso personagem, cuja relevância para a região, a despeito das ressalvas contidas nos parágrafos acima, é incontestável. Manoel Rozendo Cordeiro era filho de um abastado fazendeiro (pelo menos uma fonte documental o cita como advogado) de nome João dos Santos Cordeiro, nascido e batizado na freguesia do Santíssimo Sacramento no Rio de Janeiro, que teria chegado a Cantagalo em torno da terceira década do século XIX. Era ele filho de um também João dos Santos Cordeiro, possivelmente português. Desconhecemos o ano exato em que João dos Santos Cordeiro se desloca para Cantagalo, no entanto em 1833 será ele nomeado para a segunda cadeira de primeiras letras do município e o seu casamento dar-se-á, na fazenda Monte Verde (propriedade de Joaquim Machado Botelho e hoje território de São Sebastião do Alto) em 15 de agosto de 1835 (fragmento de Livro de Matrimônios, sem número – Igreja Matriz de Cantagalo), sendo a noiva Maria Izabel dos Anjos, filha do poderoso fazendeiro Antonio Machado Botelho. Era ela neta, portanto, do açoriano João Machado Botelho, nascido na ilha de São Jorge e falecido em 1826, desde 1804 radicado em terras das Novas Minas de Cantagalo e posteriormente proprietário da fazenda da Torre. Desta forma, Manoel Rozendo Cordeiro, representaria a quarta geração de sua família a ocupar o território do atual município e pelo período atribuído a seu nascimento, seria ele um dos filhos mais novos do casal, provavelmente precedido pelos irmãos Antonio, Firmina Justiniana, Melania Antonia e José Albano, este último falecido em 1899, aos 57 anos (nascido portanto, em 1842). Durante longo tempo João dos Santos Cordeiro, não será citado nos documentos cartorários até que, em janeiro de 1853, referido como advogado e morador na vila de Cantagalo, surge como vendedor de uma casa na rua de Santanna. Teria ele, ao que tudo indica, vários imóveis na mesma cidade, já que em fevereiro de 1865 e setembro do mesmo ano, assinalado como fazendeiro, desfaz-se de pelo menos mais três deles, os dois últimos em favor do médico Herculano Mafra. Sabe-se também que João dos Santos Cordeiro, até falecer em torno de 1876, conservaria em sua propriedade a fazenda Nossa Senhora da Piedade, ou parte dela, em cujo território seria construída a estação férrea que levaria seu nome. Imensa gleba que se confrontava com a fazenda dos van Erven, com as Lavrinhas e com terras da fazenda da Torre, seria ela, após a morte do proprietário, vendida em grande parte, pelos diversos herdeiros. Assim, temos que Antonio Alves Cordeiro e sua mulher Maria Josephina, moradores em Santa Rita do Rio Negro, já em fevereiro de 1877, venderão ao irmão e cunhado José Albano de Almeida Cordeiro, sua parte nas terras que haviam herdado por morte do pai e sogro João dos Santos Cordeiro, gleba esta “encravada nas terras da fazenda Nossa Senhora da Piedade”, confrontando com Antonio van Erven, João Machado Botelho (filho homônimo do patriarca da família Machado Botelho), Fortunato Barbosa Velloso e o comendador Manoel Pereira de Souza Junior. Nesta transação figurará Manoel Rozendo Cordeiro como uma das testemunhas. Em maio do mesmo ano, Antonio Alves Cordeiro venderá a Collecto da Silva Freire, mais uma parte de sua herança, limítrofe a fazenda das Lavrinhas, constando nela, além das terras remanescentes, uma fração do engenho, moinho, rego e açude, existentes na fazenda. Quanto a Manoel Rozendo Cordeiro, teria ele nascido em território da futura Cordeiro (certamente na fazenda paterna), ali vivendo até 1904, quando se desloca para Cantagalo. Contraiu matrimonio duas vezes, a primeira com Elidia Soares da Silva, estando já casado em junho de 1870, ao vender a Antonio Machado Cordeiro os direitos de uma herança por falecimento do avô Antonio Machado Botelho (Livro 14 – Cartório de Cantagalo). Casou-se em segundas núpcias, com Maria Augusta Schmid Barbosa, em Cantagalo, aos 6 de novembro de1895 (reg 107, fl 69/70 – Livro 3-B da 1a circunscrição de Cantagalo), sendo ela filha de Pedro Augusto Schmid Barbosa. Deste matrimonio teria resultado pelo menos uma filha, de nome Alice, posteriormente casada com o português Antonio Jacintho do Amaral. Teria ele, no entanto, segundo Alaôr Scizinio, um filho de mesmo nome, entre outros. Na verdade, Manoel Rozendo Cordeiro se tornaria conhecido na historiografia cordeirense, por ser o fazendeiro em cuja propriedade permaneceriam hospedados por tempo indeterminado os imigrantes, principalmente italianos e portugueses, que se dirigiam em final do XIX, às fazendas de café da região, bem como por ser aquele que em documento público de 7 de março de 1902, doaria oficialmente à Sociedade Anônima Estrada de Ferro, a área que esta já ocupava na margem esquerda do rio Macuco, com edificações e trilhos (Livro 3-A, fl 112, número 3.760 do RG de Imóveis da Comarca de Cantagalo). No entanto, o ramal Nova Friburgo-Cordeiro teria início em junho de 1872 e já em 1877 tem-se notícia do povoamento da área contígua a estação, por terceiros, conforme registro de venda que faz João Machado Botelho Junior, em 24 de novembro de 1876, de “meia casa térrea na estação do Cordeiro”, situada na rua do Comércio, fundos para a rua do Machado, em “terreno foreiro a João dos Santos Cordeiro” (Livro 16, fl 73 – Cartório do 2o Ofício de Cantagalo). A afirmativa documental acima referida, de que o imóvel vendido em 1876 na estação de Cordeiro era “terreno foreiro a João dos Santos Cordeiro” não deixa qualquer dúvida quanto a ter sido o pai de Manoel Rozendo, quem inicia a permissão de construções em seus domínios, cabendo aos descendentes, a manutenção do que já existia de fato. Pode-se observar com clareza, ainda pelo mesmo documento, que o povoamento de Cordeiro precede a doação oficial do terreno à via férrea em cerca de trinta anos, posto que em 1877 já contava com várias ruas. A ocupação, portanto, ocorre quando as terras pertenciam ainda a João dos Santos Cordeiro. A este último, em nosso entendimento, deve ser atribuída a iniciativa que teria dado origem ao florescente município.

Henrique Bon

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